29/06/2016

O Sonho

Sonhei que todos os reis estavam nus. Todos eles. Em todos os reinos. E não se culpe o pobre do rato. Não foi ele quem roeu a nobre roupa. Os reis estavam nus porque era necessário que os reis assim estivessem. Era melhor para todos que as altezas não mais se escondessem atrás de trajes requintados e de perucas bem arrumadas.
A transparência era total: os reis, mesmo eles, não tinham como esconder seus rabos.
E, se assim mesmo algum deles tentava, se insistia na vã tentativa de esconde-esconde, mais dia menos dia viria a ser flagrados. E, o pior: não teria tempo para cobrir suas partes pudendas. Desacostumados com a nova ordem, gastariam longo tempo tentando o inevitável.

O compartilhamento de informações e o cruzamento de dados iam aos poucos retirando as roupas, as máscaras e revelando lentamente tudo o quanto de podre cercava os donos do poder. Pena que a máquina não era perfeita e, de algum modo, agia de maneira seletiva. Era mais firme e determinada contra alguns reis, mantendo alguma reserva em relação a outros. Não havia como mostrar tudo, diziam. Não havia tempo no noticiário de tevê para falar todos os nomes. Então, escolhiam-se alguns. Porque também eram necessários os comerciais, a novela, o jogo e o programa humorístico.  
No fundo, patrícios, plebeus, clientes, escravos e libertos de todos os reinos bem sabiam que seus reis estavam nus. E, não havia qualquer dúvida, de que os palácios, que escondiam ouro em profusão, estavam impregnados pelo bafo fétido de cada líder que se sentava com seu rei para negociar uma tal de governabilidade.
Os desgovernos eram ardilosamente tabulados em mesas de negociações. Vota aqui e ganha lá. E assim seguia o processo. Todo o mundo sabia disso. Assim é o ritual, dizia alguém na mesa de um bar ou dentro de um lar. Às vezes alguém caia. Às vezes não dava certo. O jogo funcionava assim. Mas, em regra, o reino seguia seu rumo como o rio segue em direção ao mar. E as águas não voltam. Ou melhor, até retornam, mas de outra forma.
Um sábio chinês (não poderia ser de outro reino), de barbas longas e rabinho de cavalo trançado caindo nas costas, alertava com sua voz macia, mas suficientemente firme, de que as águas que caem do mar não provém do mesmo lugar. Atravessaram leitos rochosos, arenosos ou lodosos. Formaram corredeiras violentas ou fluíram sem pressa. Superaram todos os obstáculos, subiram aos céus formando nuvens que se precipitaram e hoje todas as águas se misturam sem distinção. Não há mais sinal do lodo, da areia, da pedra. Nada restou da força da correnteza nem da tranquilidade de então.
E nos reinos dos sonhos, os reis estavam nus. E tomavam banho na água que caía do telhado do palácio como meninos que são governados por seus sonhos. 

Saiba mais sobre a nudez do rei:

Contos Atemporais
Revista de História

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