29/05/2015

A Era do Rádio

Final de tarde. O sol se retirava de cena vagarosamente. O calor ainda era grande, o vento era calmo. Estava sentado em um banquinho. Tinha talvez uns oito anos. Nove no máximo. O pai estava ao lado do rádio. Ouvia atentamente. A voz grave do locutor anunciava com sensacionalismo: “Daqui a pouco, importante entrevista com o mago fulano de tal que vai falar sobre o fim do mundo. Fiquem ligados. Daqui a pouco, depois dos comerciais”.
Sentia medo o menino.  Como assim? O mundinho iria acabar? A terra arenosa onde seus pés pisavam naqueles dias juvenis iria sumir? A bergamoteira em cujos galhos empoleirava-se tentando pegar a fruta maior, mais madura e mais doce desapareceria um dia? A goiabeira apinhada disputada ferrenhamente com os passarinhos também deixaria de existir? O mundo acabando assim desse jeito não fazia parte dos seus planos. A tarde caia e o radialista ia adiando a tal a entrevista aumentando ainda mais a angústia, a incerteza e a tensão que faziam o pequeno coração pular desordenadamente no peito. O pai deixou o rádio de lado e flagrou o medo no olhar do menino. Disse que não levasse as coisas tão a sério.  Que não seria a primeira nem a última vez que o mundo todo seria mexido por catástrofes.

A Voz

Sacerdote
Peça perdão ao sacerdote que é o legítimo representante da divindade e tudo estará bem. O mal será substituído por alguma prenda, a ordem será restabelecida e tudo continuará como deve. Submeta-se humildemente e a resposta positiva virá. E seus passos seguirão como se nada de mal houvesse ocorrido. Limpo e puro. Livre e solto. Os pecados, os deslizes, os erros ficarão num passado que será superado pelo milagre da representação.  O divino substituído pelo humano, legitimado, é claro, pela voz do além.
Porém, a voz não é ouvida por todos. Só por alguns. Muito poucos, aliás. Os eleitos, os escolhidos são iniciados na prática de escutar a Grande Voz que rege tudo o que há. E por isso são sábios, conhecem o certo e o errado e também as fórmulas para curar as máculas dos seres comuns.

23/05/2015

Vida e Morte: uma crônica canina

Ruivão
O Boby era muito engraçadinho. Seu pelo era claro. Seus olhos espertos. Era carinhoso, o Boby. Porém, apesar de afetivo com as crianças e com os adultos, ele não era só amor. Ele não gostava muito do Ruivão. Mas, por outro lado, tinha grande afetividade pelo Stallone.
O Stallone um dia fugiu de casa. O veículo da APAE o colheu. Ele fraturou o quadril. Bem cuidado, voltou a caminhar novamente. Não com a mesma naturalidade de sempre.  Ele ficou um pouco descontado. Ganhou até certa graça no caminhar. Alguma leveza que não tinha antes.
Certo dia acordei e dei falta do Boby. Ele já estava velho. Mal conseguia ficar em pé. Seus olhos tinham uma camada grossa de catarata. Já não enxergava mais. Mas, ainda atendia ao gritos dados da janela. Saí em sua procura e o encontrei encharcado. Havia chovido durante dois dias seguidos. Caído no chão, gemia. Não tinha forças para levantar. Tinha certeza que o correto seria sacrificá-lo. Porém, não tive coragem. Ao invés disso tomei a decisão de alimentá-lo constantemente com leite diretamente na boca. De vez em quando jogava com uma seringa um pouco de água para hidratá-lo. Não preciso dizer que um dia pela manhã o encontrei sem vida.
Coloquei o corpo imóvel no carrinho de mão e abri um buraco fundo. O Stallone acompanhou todo o processo. Estava muito triste, o Stallone. Feitas as homenagens de praxe, nossa vida voltou ao normal. Menos a do Stallone que enquanto viveu parecia lamentar a perda do amigo. Incontinente, deitava ao lado do carrinho de mão que servira de veículo fúnebre e gemia com sinceridade. Algum tempo depois, o Stallone também se foi. Ficou o Ruivão.
O Ruivão tem uma história curiosa. Diariamente ele ficava parado no portão da casa. Duas ou três vezes dei algum alimento e, após feita a refeição, o espantava para longe. Ele dava meia volta e se aninhava novamente no lugar. Um, dois, três dias seguidos. Diante de sua teimosia, meu coração acabou cedendo. O coloquei para dentro do pátio. E ele ficou sem reclamar. Nem fugir tentava.
Agora me avisam que sua vidinha está por um fio. Acometido de um tumor, de idade avançada e por outros problemas caninos, o Ruivão vai se despedindo. É possível mesmo que quando esta crônica for lida já esteja vivendo  no mundo espiritual da bicharada. É a vida que segue seu rumo sem descanso. Vale para todos nós, os humanos, para os cães e para tudo o quanto existe.  

06/05/2015

As Mães

Nas escolas infantis estes dias que antecedem ao Dia das Mães é de grande movimentação e expectativa. Os pequenos são estimulados pelas “tias” a preparar algumas surpresas para suas genitoras. São orientados a entregar a agenda para o pai que, desatento como sempre, não observará que dias antes deve mandar alguns trocados ou materiais para a confecção das surpresas. Nestes casos, a diligente mãe é quem providenciará tudo o quanto for necessário para a sua “surpresa”.
Sem contar as musiquinhas que os pimpolhos ficam tentando cantar pelos cantos da casa. Querem, de alguma forma, antecipar o conteúdo, mas como foram orientados para que não cantassem na presença da mamãe, ficam disfarçadamente treinando o canto. As mães, por sua vez, fingem que nada ouvem.
As coreografias constituem um capítulo à parte. Trôpegos ainda com estas coisas de coordenação motora, visivelmente não dominam seus corpos. E as “tias”, zelosas como nunca, incluem duas ou três ações simultâneas para a garotada. Se alguns adultos têm que optar entre caminhar e mascar chicletes, imagina os pequenos que têm que cantar e gesticular ao mesmo tempo. Claro que a intenção é das mais compreensíveis. É tudo treino. É tudo preparação.
Porém, não é incomum que um que outro desgarre do grupo e fuja do palco assustado com a complexidade da missão. Neste caso não faltará um colo de mãe a acolhê-lo. Convenhamos, como mãe é ser humano também (desculpe, mas às vezes a missão materna é tão exaltada que parece que todas são divindades), não é anormal que a mamãe do fujão questione: “será que este menino é normal?”.
Enfim, como diria aquele poeta sempre presente: são tantas emoções. Mas, todo o esforço vale a recompensa. No final das homenagens, mães retocam suas maquiagens visivelmente emocionadas com a performance dos pequeninos. Nem lembram que compraram as lembranças, que sabiam a música que seria cantada e que a gurizada agia desordenadamente no palco.
O choro das mães é sincero.

02/05/2015

O Olhar do Outro


Nossos olhos captam o movimento do mundo à nossa volta. E não estamos sós. Os olhos dos outros captam nossos movimentos. E assim, trocando olhares, vamos seguindo nosso caminho por aqui. Olhamos e somos olhados. E nossa imagem vai sendo medida. Nossos passos vão sendo analisados, sem maldade, sem interesse. Ou com maldade e com interesse.
Até que ponto o olhar do outro interfere no nosso dia a dia, no nosso modo de viver? Há quem diga que não se preocupa com o que os olhos dos outros captam. Será verdade?
Quando cursava Letras, na Facos, participei de um curso de teatro. Os anos 80 estavam  no seu auge. Desejava aprender algo mais, algo novo. Queria algo que efetivamente contribuísse  de algum modo para construir um novo olhar sobre a realidade. E a realidade artística, convenhamos, é sedutora.