02/09/2010

Pátria Amada

O mês de setembro é o mês da Pátria. Repetimos isso, participamos das comemorações, exaltamos, homenageamos. No entanto, não nos permitimos pensar a respeito do que é esta Pátria Amada, qual a origem deste sentimento pátrio, o seu significado e sua validade. Nós, gaúchos, então, temos dobradas comemorações, eis que aqui se nutre um sentimento duplamente patriótico pelo culto ao Brasil e, em especial, pelo Rio Grande.
Entre os povos antigos, a pátria significava a terra dos pais. Entendia-se que a pátria de cada homem era a porção de terra ocupada pelos ossos dos antepassados, onde, acreditava-se jazia também uma alma. Este solo era sagrado, tanto que lhe rendiam homenagens, com o acendimento de um fogo que jamais poderia ser negligenciado sob pena de revolta dos espíritos esquecidos, que movidos por vingança causariam  alguns estragos, como desgraças familiares, quebra de safras agrícolas e mortes de animais, entre outros. 

Os mortos, na religião antiga, tanto na Grécia como em Roma, eram divindades. Assim, o solo que os abrigava, da mesma forma, era santificado. O sentimento religioso impulsionou a valorização da propriedade que abrigava os despojos dos familiares. Por outro lado, a pátria prende o homem como se um círculo sagrado o envolvesse. É preciso amá-la, pois a terra pátria abriga os antepassados, os mortos, as divindades. Todos os esforços são justificados para a manutenção da integridade pátria. O grande castigo, entre os povos antigos, era o desterro, ou seja, condenar alguém a se afastar da pátria e, ao morrer, não permitir o enterro de seus restos junto ao pai. Negava-se a propriedade e, muito mais, o direito à religião paterna.
Sofremos durante longo tempo, nestas margens plácidas, de certa indigestão pátria. Confundimos estado, regime de governo e administração pública com a pátria. O excesso de discurso pretensamente patriótico, de amor e dedicação acima de qualquer suspeita, impulsionou a supressão de liberdades, justificou a tortura e ao aniquilamento dos inimigos da pátria. Talvez, por isso, não nos permitimos amá-la, como faziam nossos antepassados. Claro, os tempos são outros. As motivações são diferentes. Surgiram novas crenças, novos sentimentos. Vibrar pela pátria honestamente, sem rubor, com aquele sentimento antigo só nos permitimos na Copa do Mundo, nas Olimpíadas ou quando algum solitário desportista ergue o pavilhão nacional. 
A corrupção, antiga – velada, escondida estrategicamente - e a atual – desmascarada diariamente pela imprensa-, nos envergonha. É um elemento complicador. Quem de nós não alimenta a utopia de uma pátria perfeita. Homens buscando somente o bem comum, no verdadeiro sentido filosófico.  A nódoa da corrupção está incrustada em todos os povos, em todos os tempos, em todos os setores, é uma chaga que contamina, destrói o tecido social e alimenta o desânimo e a descrença. 
De qualquer modo, com corrupção, com erros, com acertos, com excessos, nosso país é, acima de tudo, um reflexo dos homens que aqui nasceram e que aqui se encontram. Mesmo sabendo que o estado ideal das coisas é um estado latente, inatingível, é importante que seja perseguido. Tal qual uma utopia, um desejo, um sonho, um local aonde não chegaremos, nutrir o sentimento de amor à pátria é uma retribuição ao trabalho que nos legaram os nossos antepassados mais idealistas. Iludidos, talvez, mas acima de tudo movidos por sentimentos verdadeiros.
Jogar a toalha depois de mais uma notícia negativa do Jornal Nacional, de mais uma maracutaia mostrada pela Veja, de alguma safadeza regional, é descrer na capacidade de renovação que move o homem. A pátria, um dia quem sabe, abrigará em seu seio homens melhores, íntegros e voltados ao progresso coletivo. Não custa muito crer.  Desconhecê-la, massacrá-la pelas nossas próprias mazelas é uma mera projeção.  Esconde o essencial. 
   

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