20/05/2010

Os dramas do escrete canarinho

A última semana foi marcada pela dramaticidade. Dunga foi a figura central de norte a sul deste Brasil varonil. Tão logo anunciada sua lista dos 23 gladiadores que defenderão o selecionado canarinho nas arenas da África do Sul, centenas de comunidades foram criadas na internet, bate-papos se encheram de expressões chulas, sempre com o objetivo de destacar a insensatez, a torpeza e a desfaçatez do comandante da seleção nacional.
Os mais exaltados propunham a incineração do capitão da nau verde e amarela. Sob o mantra “sem Neymar é impossível ganhar”, “sem ganso não haverá avanço”, a turma protestou pesado. Não adiantaram as explicações do comandante que falou sobre comprometimento, doação, atitude patriótica e outros quesitos, aliás, bem fora de moda nos dias de hoje. O drama se arrasta de tal forma que já há inúmeras correntes de torcedores e jornalistas torcendo para que a seleção naufrague de maneira espetaculosa para, depois do barco soberanamente submerso, dizer: “eu não disse, faltou o talento do Neymar, do Ganso”.

A história se repete. Quem é um pouco atento ou mesmo fizer uma pesquisa mínima sobre o comportamento da seleção brasileira (vale até a Wikipédia), saberá que o escrete nacional nunca ganhou ou deixou de ganhar pela presença ou ausência de um jogador. Em 82, na Espanha, Telê Santana era um treinador disciplinador, vitorioso, profundo conhecedor do esporte bretão. Conseguiu reunir uma seleção imbatível, vocacionada para o ataque. Zico, Falcão, Cerezo, Sócrates e Éder eram o pesadelo das grandes adversárias. A Itália de Zoff, Paolo Rossi e Cia. foi chegando pelas beiradas, tropeçando, quase caindo e derrotou o império brasileiro. Não faltavam craques ao time de Telê.
Em 86, no México, o time de Telê também tinha craques. Estavam lá Zico, Sócrates, Falcão, Müller, Júnior. A França apareceu pelo caminho e nos tirou da Copa, nos pênaltis. Em 90, na Itália, nosso time era muito bom. Lazaroni era o comandante. Taffarel, Branco, Dunga, Careca, Romário, Mauro Galvão faziam um time de respeito. Caímos nas oitavas, derrotados pelos hermanos argentinos. O narrador Galvão Bueno, com sua ira nacionalista, colocou toda a culpa da incompetência nacional em um só jogador, instituindo a Era Dunga.
Em 94, nos EUA, contrariando o glorioso Galvão, Dunga capitaneava a seleção. Alguns remanescentes do fracasso anterior como Taffarel, Jorginho, Branco, Bebeto e Romário ergueram a taça. Galvão se abraçava ao desafeto Pelé e, juntos, pateticamente, gritavam no ar: “é tetra, é tetra, é tetra”.
Nem convém ressuscitar a Família Scolari, tão combatida pelo mesmo Galvão e que também foi campeã, o fracasso de 2006 e coisa e tal e tal e coisa. Exemplos, como se vê, há aos borbotões. O certo é que venceremos ou não, independente de um ou outro nome. Restará, pelo menos para alguns, uma explicação a mais em caso de derrota. Em caso de vitória, bem aí Galvão é mestre. Todos vão comemorar da mesma forma. Compreendê-lo, neste momento, é indispensável.
Em tudo isso só um drama me comove. É o vivido pelo goleiro Victor. Ele estava certo que iria para a Copa. Chegou a ser entrevistado pelo site da FIFA. Ali disse que sabia da concorrência com Gomes e Doni. A reação dele, neste momento, é compreensível. Victor é, acima de tudo, um ser humano que vibra, mas também sofre. E a dor, pelo que se vê, foi imensa. São coisas da vida. Sua cabeça já estava na África do Sul. É difícil trazê-la de volta, assim de uma hora para outra.

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