06/12/2017

Contagem regressiva

"E o seu deputado já vem aí. Com santinho na mão. Aperto de mão, tapa nas costas e beijo nas crianças. Tenho certeza que vai gritar seu nome de longe que é para você saber que ele tá lembrando. Que você é importante no processo. Sem você ele não garante a eleição e o futuro da família".


Vamos combinar que a contagem regressiva, se não começou oficialmente, já está na cabeça das pessoas. Cada um dos dias que passa é um a menos na conta de 2017. As horas avançam e o ano de 2018 está chegando a galope. A gente pode até nem pensar sobre isso, mas, no fim, não há como ficar imune a este sentimento de final de ciclo e início de outro.
Quem assiste tevê já tá vivendo o 2018. “Compre agora e comece a pagar só no ano que vem”. Tudo fácil e sem frescura. Juro embutido é mero detalhe. Uma coisinha que não se leva em conta. Afinal, a economia vai de vento em popa. O presidente tem o apoio do mercado. Os altos empresários estão reservando grandes expectativas na recuperação econômica. A estabilidade política está garantida. E, com isso, está tudo certo. Está tudo tranquilo.
Não importa muito se uma parcela de 90% da população reprova os métodos do governo. Isso conta muito pouco. É um detalhe mínimo. João e Maria não valem nada. O que importa é que o mercado está tranquilo. A gasolina sobe todo o dia. Os preços sobem todo o dia. Tudo aumenta. Menos a esperança de quem pega no pesado. Calma lá: João e Maria querem demais. Silencio gente: o mercado tá feliz. E é isso que verdadeiramente importa.

04/12/2017

Yes, nós temos racismo

Foto: Wikimedia

"Até pouco tempo atrás imperava a fantasia de que o brasileiro é um ser pacífico e que não levava em conta as diferenças pessoais. Ou seja, imperava por aqui um sentimento de democracia racial plena, um exemplo para o resto do mundo".

Sou tentado a afirmar que não existem raças. Que etnias são simplesmente definições culturais para reunir povos pelas suas características físicas. Que só existe uma espécie humanoide na Terra: o ser humano. Mas, quem entende do assunto, diz que, mesmo não havendo razões científicas para a separação do homem em grupos, ainda assim, não há porque prescindir do conceito de raça.
O professor Dr. Kabengele, congolês, diretor do Centro de Estudos Africanos, da USP, de São Paulo, ressalta que, “embora alguns biólogos antirracistas tenham chegado a sugerir que o conceito de raça fosse banido dos dicionários e dos textos científicos, ele persiste tanto no uso popular como em trabalhos e estudos produzidos na área das ciências sociais. O uso justifica-se como realidade social e política, considerando a raça como uma construção sociológica e uma categoria social de dominação e de exclusão”.

22/11/2017

Onofre não precisava de dinheiro

Nestes tempos de tanta variedade, de ofertas abundantes, de buscas incessantes e de produção ininterrupta, não há orçamento que chegue. Quem tem precisa mais porque todos os dias surgem coisas novas, produtos atualizados que vão tornando outros obsoletos da noite para o dia. Quem não tem assiste a tudo e se contenta. Ou não!
A sociedade atual é baseada na informação. E a geração de conteúdo não para. Ninguém dorme. Aliás, dorme sim. Mas, sempre haverá alguém em algum lugar do planeta produzindo informações que precisarão ser jogadas na rede para atualizar os sistemas. Aplicativos, sistema de segurança, notícias, vídeos, filmes, imagens, comentários, informações falsas e uma infinidade de coisas que atravessam o mundo num piscar de olhos.
Como a informação se renova numa velocidade descabida, tudo o mais também tem necessidade de renovação. O novo fica velho rapidinho. A mudança é permanente. Assim, para o antenado, dormir já é um desperdício porque o mundo não dorme.  Quem acha que está fora de tudo isso, engana-se. Esse movimento incessante de algum modo vai exigir atualizações de todo o mundo, podendo mesmo chegar à produção do veículo, da geladeira, do barbeador, do macarrão e de tudo o que há para ser vendido. E os custos vão sendo repassados, porque as grandes corporações não estão aí para fazer caridade. Então, quem acha que não está nem aí, acaba também pagando a conta.

17/11/2017

Sois Deuses

A Criação de Adão, afresco de
Michelangelo no teto da Capela Sistina 
Algumas expressões ouvidas e ditas aqui e ali, em fontes diversas, vão se constituindo como aqueles velhos enigmas que se construíram ao longo da história da humanidade. Não digo que alimente qualquer tipo de expectativa como se fosse vencer as limitações e adquirisse o direito de sair pelo mundo afora, como faziam os velhos filósofos, a semeando verdades e revelando segredos que alguém sabiamente escondeu atrás de intrincadas fórmulas e leis só conhecidas por grandes sábios ou por iniciados secretamente nas artes do conhecimento. É bem verdade que não chego a perder o sono. Mas, não dá para negar que, às vezes, uma ideia fica por dias, por meses e até por anos em algum lugar esperando a hora de que alguma conclusão apareça.

16/11/2017

O Trabalho Escravo

De vez em quando, algumas dessas grandes empresas, que gozam de muita credibilidade, de reputação forjada pela qualidade e pela visibilidade midiática, são atingidas por denúncias de uso de trabalho escravo no seu processo produtivo. O assunto nem novo é. Mas, é sempre repugnante.
A escravidão faz parte da história humana. Nas primeiras guerras, aprisionar o inimigo e torná-los escravos era parte do jogo. Não era grosseiro e desumano. Não causava repulsa. Era coisa normal. Que perdia a batalha virava coisa. Perdia nome, família, endereço, pátria. Virava propriedade de alguém. Dizia-se que os perdedores foram abandonados por seus deuses.
Como o tempo, a ferro e fogo, as coisas foram se modificando. É certo, porém, que no nosso tempo, aqui e ali, ainda há culturas que mantém viva esta tradição que revela a mais profunda brutalidade carregada pelo ser humano que vive com os pés num passado muito distante.

25/10/2017

O Bem e o Mal

Uma das maiores transformações na forma de vida da humanidade ocorreu quando pioneiros, entre eles o brasileiro Santos Dumont, conseguiram domar os céus, vencer as correntes de ventos e manter suspenso um mecanismo mais pesado do que o ar. A realização do sonho de Ícaro deu início ao encurtamento das distâncias. O mundo ficou pequeno.  Mas, a engenhosidade humana em seguida arrumou um jeito de usar o progresso para incrementar seu arsenal de guerra. Os inventores do avião não haviam perdido noites de sono para a guerra. Alguém, porém, usando da criatividade destrutiva concebeu a destruição em massa, lançando pesadas bombas nas cabeças dos inimigos. No esforço para a vitória valia mesmo sacrificar crianças, mulheres, doentes e todos os que se encontravam no campo do inimigo. Guerra é guerra.
Os sonhos dos irmãos franceses Auguste e Louise Lumière em captar  a imagem para posterior projeção de algum modo transformou o mundo do entretenimento.  O cinema enterrou de vez o show de horrores que expunha criaturas nascidas com má formação física, chamadas de aberrações da natureza. Ao invés da mulher barbada, do bezerro com cinco patas, do homem elefante, da mulher elástico e outras coisas tão em voga nos curiosos anos do final do século XIX, o público começava a ser seduzido pelos filmes  Empregados Deixando a Fábrica Lumière e a Chegada de um Trem à Estação de la Ciotat.

19/10/2017

A Mala

Fazia algum tempo que não conversava com a velha amiga. Não: ela não é velha. Antiga é nossa amizade que já registra algumas décadas. Durante este afastamento muita coisa ocorreu. Os dias são outros. Nós também somos outros. Nos tempos distantes não havia assim tanta tecnologia. Os contatos eram mais físicos, olho no olho.  Vivia-se sem celulares, sem redes sociais, sem tanto compartilhamento nem tanta postagem. A vida, talvez por isso, transcorria sem tanta pressa. As notícias, mesmo numa cidade pequena, iam deslizando preguiçosamente de boca em boca, espraiando-se nas conversas das comadres nos seus chás tardios ou no traguinho dos compadres num balcão ensebado de algum desses botecos que vendiam pão, leite em saquinho, Mumu, Bombril, farinha, açúcar, panelas, fumo em rolo, linguiça, além de algum remédio para dor de cabeça.
Disse-me que dia desses viu um impactante vídeo numa das redes sociais. A mensagem dizia que nascemos com o propósito de carregar nossa mala. E vamos atulhando a mala com os conhecimentos que vamos adquirindo ao longo da existência. Nem só aqueles conhecimentos transmitidos por fontes seguras e comprometidas com o processo de crescimento dos indivíduos. Não! A mala vai recebendo lentamente todo o tipo de material ali jogado, sem censura prévia, sem grandes deliberações nem juízo crítico.

16/10/2017

O Artilheiro de Cinco Mil Cruzeiros

Antônio da Silva
Já havia ouvido esta história. Porém, em 2013, por ocasião da edição de um vídeo sobre os 60 anos de fundação do GAO - Grêmio Atlético Osoriense, pude conversar pessoalmente com Antônio da Silva, conhecido como Santo Antônio, que atuou nos anos 50 e 60 no futebol amador por equipes de Osório e de outras cidades. Foi um desses raros prazeres de ouvir uma boa história contada por seu protagonista. 

Aos poucos as lembranças vão sumindo de sua mente. Menos mal que Antônio da Silva, o Santo Antônio, conta com o apoio da esposa Lucília Nunes da Silva. Ela é uma entusiasta, especialmente quando começa a recordar os anos de glória que ambos viveram nos campos de futebol de Osório. Ele, um polivalente atleta; ela, uma torcedora das mais aguerridas.