21/02/2018

As Curtidas


As redes sociais vieram para mudar tudo. Eu disse tudo. Mas, nem sempre foi assim. No começo era mais uma brincadeira de nerd. Hoje é coisa séria. A vida passa por ali. Se não tá na rede não existe. O mundo virtual é o mundo real. A vida chata de alguém que carrega dentro de si uma carga enorme de infelicidade pode ser filtrada de tal forma que os outros a percebam como a mais feliz das criaturas.
Não é discurso moralista. Nem estou dizendo que um dia foi melhor. Não é isso. Na verdade, o homem vem, desde os tempos da penumbra das cavernas, tateando. Saiu da escuridão para a luz sem óculos escuros. Viu seu reflexo na água e ali nasceu um deus.  E foi criando deuses e mais deuses porque se encantou com tudo o quanto era majestoso e inexplicável.
Eis que só criar deuses não revelou ser uma prática consistente. E alguém começou a pensar sobre a sua própria existência. Alakazam! Surgia a Filosofia. Quem sou eu, de onde vim, para onde vou? Que faço neste corpo? A morte é o fim? Qual o sentido da vida? Penso, logo existo? Cruzo o mesmo rio mais do uma vez? Ou o rio que cruzo agora já não será mais o mesmo rio no segundo seguinte justamente porque o cruzei? Perguntas e mais perguntas. Responde quem acha que sabe. Já quem sabe diz que nada sabe e mais pergunta do que responde.
Foram séculos de estudos e mais estudos. Pesquisas e discursos. Ainda que de modo imperceptível, sem golpes e nem pulos históricos, o homem das cavernas, apesar de sua luta renhida para sobreviver, achou tempo para progredir. Deixou de resolver as coisas no sopapo, virou gente. Aprendeu a cumprimentar cordialmente os outros, mesmo que os dentes estivessem cerrados. Aprendeu a sorrir disfarçadamente, mesmo que por dentro corresse algum ácido pelas entranhas. Ou seja, a civilidade, de algum modo, validou a hipocrisia. Afinal melhor ser hipócrita do que ogro. Não é assim?
Eis que chegamos até aqui. Guerras, negociações, períodos de paz e de sossego. Isso só foi possível porque criaram regras jurídicas e sociais. Não fosse isso, não haveria ordem no barraco. Ninguém se entenderia.
As redes sociais mudaram muita coisa. Ouso dizer quase tudo. O contato humano, aquele mais próximo, tende a desaparecer ao longo dos tempos. O aperto de mão, tão simplório, frio ou quente conforme a energia de cada ser, tão raro será um dia. O abraço, então, será extinto. Bastará enviar mentalmente uma curtida. Ficará gravada na rede virtual a manifestação de carinho e apreço. O mundo virtual saberá.
Alguém vai pensar que é exagero. Teoria do caos. Loucura de quem não tem outra coisa para pensar. Qual nada. Às vezes saio da caverna e vejo que não se usa mais sinais de fumaça. A surpresa maior é que voltam a criar deuses. E o pior com a face humana. Aqueles deuses vingativos, fortes, poderosos, raivosos que, em algum momento, bem que poderia se confundir com a face oposta.
Se leu, curta. Se gostou, compartilha. 

18/02/2018

Sobre cães e músicas


Perseguição – É final de tarde. Três cães se encontram na praia. Um é de madame. Os outros nem tanto. Mesmo diferentes juntam-se pelo mesmo ideal. Perseguem insanamente três quero-queros que voam baixo sobre a cabeça de corpos bronzeados e de branquelos de toda a ordem que ainda resistem na faixa de areia. Os pássaros se divertem e os cães também. Os caninos talvez pensem que é possível alcançá-los. Na vã tentativa, às vezes chegam a dar saltos. Coisa pouca. Sem resultados práticos. Os pássaros parecem zoar. Dão voltas e voltas pela praia. Voam baixo dando alguma esperança aos perseguidores. Súbito sobem um pouco mais. É risível a brincadeira. O pescador esquece o anzol na água e ri. A senhora sisuda ri também. Ri o menino pequeno que toma banho de cuequinha do Batman. Minutos depois, extenuados, os cães vão desistindo da brincadeira. Voltam a marchar seriamente. Os quero-queros seguem voando baixo.

Realidade – De tão repetido, o discurso vira norma. Vira certeza. Transita como realidade. Dizem que a vida no Brasil começa agora, depois que a última ala da escola de samba deixou a avenida. Bobagem. O ano começou faz tempo. A gasolina subiu quanto? Os governantes perderam tempo tentando empurrar o pacote que muda radicalmente a vida dos mais velhos e mais pobres? O ano não começou ainda? Começou, é claro. Na realidade, em alguns sentidos, 2017 não terminou.

Bom gosto – Às vezes leio ou ouço manifestações bem ácidas em relação às músicas que se destacam por aqui. Soa como: “No meu tempo era melhor. Só tinha música de qualidade”. Se o reclamante for alguém que vive rodeado de discos de música erudita ainda vá. Quando se trata de sucesso de público, seja no rádio, na tevê ou na internet, a preocupação com qualidade é coisa que menos conta. Nem só aqui. A letra a seguir ganhou uma carrada de prêmios no Grammy 2018*: “Lindinha, o que tá rolando? Você e sua bunda estão convidadas! Então estão convidadas a rebolar. Rebole para este cafetão. Rebole, rebole para este cafetão…” A quem interessar possa, os primorosos e inspirados versos são de  Bruno Mars não do É o Tchan nem do Terra Samba. É Rythm and Blues. Ah, tá!

Democracia – São quase vinte pessoas: meninos, meninas, jovens e veteranos. Um sol, uma areia, um gazebo, uma caixa de som, uma bateria de carro, mais de uma chopeira e  muita disposição. A praia é democrática. Cabe de tudo: funk, pagode, anos 80, sertanejo, nacional, internacional, bandinha alemã. “Eu moro aqui, você mora aí, estamos tão longe, será que vai dar certo?**”. A altura do som aumenta conforme o nível etílico num fenômeno conhecido como surdez alcóolica. Há complacência na faixa de areia. Umas meninas de um guarda-sol perto entram na brincadeira e aderem à coreografia. Dura pouco a empolgação. Mudou o ritmo de repente. Quem não gosta, cala. Quem cala, mesmo que inconscientemente, consente. E o som segue. Atravessa o meio-dia e chega no meio da tarde. Quando o chope terminar acaba a festa. “Porto Alegre é longe, tô indo de ônibus, pra te encontrar...”



10/02/2018

Você tem razão



Um debate vez por outra não faz mal a ninguém. Se for sobre algo irrelevante é até divertido. Quem jogou mais: Pelé ou Maradona; Maradona ou Messi; Pelé ou Messi? Se a discussão envolver gente mais vivida, que teve a honra de assistir, mesmo em videotape ou nos documentários do Canal 100, no cinema, Pelé ganhará de lavada. Se o debate for na terra de Gardel, o caso muda de figura. Racionalmente, porém, sabemos que não dá para comparar coisas de grandezas diferentes, de tempos diferentes. Como se dizia há algum tempo: cada um no seu quadrado.
Nos dias atuais, no entanto, há um fascínio exagerado, quase obsessivo, de manter discussões intermináveis sobre determinadas questões que parecem ser os grandes problemas de humanidade. O tatame onde estas quase lutas se arrastam são as redes sociais. Uma das técnicas mais usadas nesta guerrinha virtual é desqualificar radicalmente o argumento do outro. Se houver insistência: soltar o verbo recheado de impropérios, procurando criar constrangimento ao oponente.
Já faz algum tempo que desisti de participar deste circo. De vez em quando me permito, à título de esclarecimento, responder alguma postagem com um link que demonstra que a notícia é fake. Um boato qualquer criado para caçar compartilhamentos e visualizações. Alguns, ainda assim sentem-se ofendidos. Preferem manter a verdade inventada ativa a sepultar uma mentira evidente
Debates acalorados não se restringem ao meio virtual. Daqui a pouco iniciará a campanha eleitoral. Engano meu: já começou. Faz pelo menos uns quatro anos. Mas, com certeza, dentro de mais alguns meses o tom subirá muito decibéis. Acusações, ataques, agressões serão mais que comuns. Nervosismo no ar. Imagens manipuladas, como sempre, transformarão ogros em príncipes. Emoções a mil. Falsidades na tevê vendidas como produtos de primeira qualidade.  
De certo modo, por mais distante que o indivíduo queira ficar, sempre aparecerá uma ou outra questão esperando por um bom debate. Um ping-pong básico. Argumento daqui e contra-argumento de lá. Porém, não é de todo impossível que o debate venha a ficar chatinho, se arrastando por tempos intermináveis gerando desconforto. Nestes casos, a sabedoria do velho mestre Millôr Fernandes poderá enterrar de vez a gana destruidora do oponente. Segundo ele, quando a conversa degringolou e nenhum argumento seu fará qualquer diferença no convencimento do outro, há uma forma sutil e inteligente de acabar com a bateção de boca. São palavras mágicas que acabam com a conversa: “Você tem razão!”


29/12/2017

Ano Novo, vida nova

VIDA NOVA- Ano novo vida nova: diz uma surrada expressão otimista, hoje um tanto quanto sem uso. Talvez para um que outro coincida o avanço do calendário com a fase de transformação da existência. Pensando bem, que bom seria que num passe de mágica as transformações necessárias ocorressem com a simples mudança do ano. A magia, no entanto, não ocorre assim num flash. No processo natural, é necessário tempo de maturação para que as coisas se consolidem.
Porém, para quem está necessitado de uma quinada na existência, o clichê bem que pode funcionar como uma mola. Mas, cuidado: até uma mola cansa.

PRESENTE -  O presidente mais rejeitado de todos foi para a cadeia dar o seu recado. Diga-se com todas as letras: o presidente mais rejeitados de todos foi para a cadeia de rádio e televisão, na véspera de Natal, dar o seu recado à nação. Estava ouvindo no rádio do carro e pude ouvir uma ou duas frases. Depois disso, passei para a playlist do pendrive porque ninguém é de ferro, a chuva era torrencial e não convinha que me distraísse entre risos e indignações.

FESTA À FANTASIA -  Mesmo que tenha ouvido meia dúzia de palavras, posso, sem medo de errar,  afirmar que durante seu pronunciamento o presidente  ressaltou as qualidades do seu governo na luta constante no enfrentamento dos grandes problemas da nação. É certo que apresentou números e estatísticas confiáveis que mostram que o país vai se distanciando da crise e que, superados estes tempos de desafios, ao final e ao cabo o Brasil vai avançando de maneira muito firme na conquista de seu lugar como uma nação livre e forte.
Depois disso, o jornal chapa branca do país deve ter editado as frases mais fortes e reforçado todo o empenho do governo em fazer o trem andar. Não estivesse o preço da gasolina nas alturas, o desemprego batendo taxas históricas, as alterações na legislação trabalhista transformado trabalhadores em escravos, teríamos motivos para rir.
O PMDB, partido do presidente, mudou. Agora é MDB. Mudou a fantasia. A cara velha e deslavada por baixo da máscara é a mesma. E segue a festa à fantasia. Ano novo, vida nova? Veremos!

19/12/2017

Imagem não é tudo

"Faz anos uma rede de tevê juntou especialistas para dar um rosto mais verdadeiro ao Mestre Jesus. O que saiu foi algo muito diferente das imagens costumeiras".

Luzes de Natal - Com salários parcelados e sem o décimo terceiro pingando nas contas bancárias, boa parte do funcionalismo público gaúcho vai se acostumando à mudança de hábitos. Como a economia é a uma estrada de muitas vias, o dinheiro que falta na conta do servidor público vai faltar ao comércio, que pagará menos impostos repassando menos recursos para o Estado. E o círculo não se fecha para por aí. Faltando recursos furam os orçamentos. Com isso, saúde, educação, segurança e outros serviços, que já são capengas há décadas, vão decaindo ainda mais. Ano que vem, fortes refletores voltam a iluminar os candidatos a governador para garantir boa imagem no horário eleitoral. Certamente, não faltará alguém que exporá números e mais números e dirá que resolveu a crise financeira que abateu sobre o Estado. Juro que não vou rir.

06/12/2017

Contagem regressiva

"E o seu deputado já vem aí. Com santinho na mão. Aperto de mão, tapa nas costas e beijo nas crianças. Tenho certeza que vai gritar seu nome de longe que é para você saber que ele tá lembrando. Que você é importante no processo. Sem você ele não garante a eleição e o futuro da família".


Vamos combinar que a contagem regressiva, se não começou oficialmente, já está na cabeça das pessoas. Cada um dos dias que passa é um a menos na conta de 2017. As horas avançam e o ano de 2018 está chegando a galope. A gente pode até nem pensar sobre isso, mas, no fim, não há como ficar imune a este sentimento de final de ciclo e início de outro.
Quem assiste tevê já tá vivendo o 2018. “Compre agora e comece a pagar só no ano que vem”. Tudo fácil e sem frescura. Juro embutido é mero detalhe. Uma coisinha que não se leva em conta. Afinal, a economia vai de vento em popa. O presidente tem o apoio do mercado. Os altos empresários estão reservando grandes expectativas na recuperação econômica. A estabilidade política está garantida. E, com isso, está tudo certo. Está tudo tranquilo.
Não importa muito se uma parcela de 90% da população reprova os métodos do governo. Isso conta muito pouco. É um detalhe mínimo. João e Maria não valem nada. O que importa é que o mercado está tranquilo. A gasolina sobe todo o dia. Os preços sobem todo o dia. Tudo aumenta. Menos a esperança de quem pega no pesado. Calma lá: João e Maria querem demais. Silencio gente: o mercado tá feliz. E é isso que verdadeiramente importa.

04/12/2017

Yes, nós temos racismo

Foto: Wikimedia

"Até pouco tempo atrás imperava a fantasia de que o brasileiro é um ser pacífico e que não levava em conta as diferenças pessoais. Ou seja, imperava por aqui um sentimento de democracia racial plena, um exemplo para o resto do mundo".

Sou tentado a afirmar que não existem raças. Que etnias são simplesmente definições culturais para reunir povos pelas suas características físicas. Que só existe uma espécie humanoide na Terra: o ser humano. Mas, quem entende do assunto, diz que, mesmo não havendo razões científicas para a separação do homem em grupos, ainda assim, não há porque prescindir do conceito de raça.
O professor Dr. Kabengele, congolês, diretor do Centro de Estudos Africanos, da USP, de São Paulo, ressalta que, “embora alguns biólogos antirracistas tenham chegado a sugerir que o conceito de raça fosse banido dos dicionários e dos textos científicos, ele persiste tanto no uso popular como em trabalhos e estudos produzidos na área das ciências sociais. O uso justifica-se como realidade social e política, considerando a raça como uma construção sociológica e uma categoria social de dominação e de exclusão”.

22/11/2017

Onofre não precisava de dinheiro

Nestes tempos de tanta variedade, de ofertas abundantes, de buscas incessantes e de produção ininterrupta, não há orçamento que chegue. Quem tem precisa mais porque todos os dias surgem coisas novas, produtos atualizados que vão tornando outros obsoletos da noite para o dia. Quem não tem assiste a tudo e se contenta. Ou não!
A sociedade atual é baseada na informação. E a geração de conteúdo não para. Ninguém dorme. Aliás, dorme sim. Mas, sempre haverá alguém em algum lugar do planeta produzindo informações que precisarão ser jogadas na rede para atualizar os sistemas. Aplicativos, sistema de segurança, notícias, vídeos, filmes, imagens, comentários, informações falsas e uma infinidade de coisas que atravessam o mundo num piscar de olhos.
Como a informação se renova numa velocidade descabida, tudo o mais também tem necessidade de renovação. O novo fica velho rapidinho. A mudança é permanente. Assim, para o antenado, dormir já é um desperdício porque o mundo não dorme.  Quem acha que está fora de tudo isso, engana-se. Esse movimento incessante de algum modo vai exigir atualizações de todo o mundo, podendo mesmo chegar à produção do veículo, da geladeira, do barbeador, do macarrão e de tudo o que há para ser vendido. E os custos vão sendo repassados, porque as grandes corporações não estão aí para fazer caridade. Então, quem acha que não está nem aí, acaba também pagando a conta.