15/09/16

Os Mundos

Quando estávamos nas cavernas, o mundo era pequeno. A bem da verdade, era o mundo grande lá fora, mas, os animais que tomavam conta do planeta eram maiores e  mais ferozes. Convinha manter-se perto do esconderijo. E o que os olhos não enxergavam era como se não existisse. E os olhos pouco viam.  
A segurança vinha em primeiro lugar. Era questão de vida ou de morte. Os descuidados eram punidos. E ficar por aí explorando os arredores era coisa para poucos. Assim, o grande mundo se apequenava. Os donos eram outros. Os limites eram impostos pelo tamanho dos dentes, das garras e pela intensidade da fome.
Com o aparecimento do fogo, da lança e de alguns instrumentos rudimentares, mas, eficazes, o nosso mundo foi crescendo. Num dado momento, quando as cavernas já eram coisas do passado, os limites era outros. O frio excessivo em alguns lugares, a falta de alimentos em outros, a seca e outros inimigos contra os quais as armas eram bem pouco eficientes.
Não se sabe ao certo, mas em determinada era, os homens deixaram de se preocupar com as feras e com as variações de climáticas. Começaram, então, a lançar olhos pelas coisas que os outros homens, agrupados em pequenas tribos, faziam. E o olhar de cobiça foi crescendo. E as tribos, então, entraram em lutas para conquistar aquilo que não tinham. Valia tudo: terras, plantações, animais, mulheres, meninos e meninas para servirem de escravos.  Valia a pena sair por aí, por esse mundo enorme e sem fim, conquistando tudo o que se pudesse. 
Algumas dessas tribos criaram seus deuses e os homenageavam com tudo o que tinham pilhado no campo do inimigo. E deram a isso o nome de vitória. Acreditavam mesmo que seus deuses vibravam quando o corpo do inimigo caia sangrando na terra.  Sentiam mesmo que seus deuses os abençoavam. E a benção crescia na medida em que as vitórias se acumulavam. Assim, chegou um tempo em que não havia como não guerrear. Os deuses assim queriam. Era uma questão de fé.
Porém, toda a brincadeira por melhor que seja um dia cansa. Guerra, vitória, fé. Tudo isso misturado começou a não fazer mais sentido. E alguns aqui e acolá começaram a falar que os inimigos não estão lá, na outra tribo. Que os deuses nem no céu estão. Que os troféus de guerra são inúteis. E de loucos foram chamados. E disseram mais: que os inimigos do homem estão dentro dele mesmo e que cada ser carrega também dentro de si algo de divino.  E isso soou engraçado porque todo o mundo sabe que imperfeito é. Criou-se um problema, que alguém chamou de paradoxo. Se o indivíduo é imperfeito e o Criador não é, como pode o imperfeito carregar o perfeito dentro si?
Mas um sábio, que nem chinês era, levantou e disse que o homem deve buscar o autoconhecimento mergulhando nas suas entranhas, encarando seus ácidos e seus açúcares.  A partir daí, criando um novo ser. Como diz a gurizada: “tipo nascendo de novo”. Aí estaria o sujeito agindo como um deus, criando um ser melhor do que aquele que vinha claudicante pelo mundo afora. E este novo ser enxergaria o mundo com outros olho, pois a visão que tinha ficou lá atrás.

12/09/16

Fatos e opiniões

Cada ação, cada acontecimento é um fato. A vitória da seleção na Olimpíada é um fato. A derrota do time no Brasileirão, outro fato. Um assassinato em Porto Alegre: triste, lamentável e quase corriqueiro fato. São fatos. São coisas objetivas. Boas ou não. São comprováveis por documentos, números, gráficos, imagens e registros.
O que se ouve sobre tudo o que cerca cada fato são opiniões. É a percepção das pessoas sobre as razões, as circunstâncias, as motivações e uma série de outros institutos subjetivos sobre o fato, levando em conta o juízo de valor que cada um imprime. Então, opinião não é fato. É a versão concebida por alguém de um fato. O fato é imutável, a opinião pode ser modificada ao longo do tempo.

01/09/16

A Promessa

Fazer uma promessa, nos tempos mais antigos, era assumir uma dívida. Uma criança nascia com algum problema de saúde, às vezes somente muito mirrada e fraca, e a mãe se grudava no santo do dia: fosse João, José, Roberto, Vicente, Jerônimo, Wenceslau, Nicolau, Rosária, Regina, Aurélia ou Das Dores, não importava. Importava isso sim, que alguém, santo ou arcanjo, se sentisse homenageado o suficiente para garantir a vida daquele que nascia.
De outras artimanhas se lançavam mão naqueles dias. Uma junção de pequenos com menos de sete anos de idade ao redor de uma farta mesa (quando possível). Era a mesa dos inocentes, uma forma de honrar uma graça recebida. Comida para encher os olhos e as barriguinhas da gurizada.
Outros criavam compromissos como não cortar o cabelo da criança por um determinado período ou vesti-la invariavelmente de branco nas missas ou coisas neste estilo.  E ai de quem quebrasse o pacto. A promessa era uma dívida e deveria ser paga, sem lamentações nem arrependimentos. Pagar a dívida é o mínimo que se esperava.

24/08/16

A Mentira

A mentira tem pernas curtas, diz o surrado e certeiro ditado popular. Por mais que ela consiga viver algum tempo ostentando a sublime aparência de verdade, não adianta:  mais dia, menos dia ela desaba. E aí, azar de quem a pariu.
Por aqui, onde há palmeiras em profusão onde os sabiás cantam, somos levados a crer que a mentira é uma instituição nacional. Até certo ponto pode-se dizer que é correto. A mentira anda para cima e para baixo. Vai de Norte a Sul, de Sul a Norte neste reino verde e amarelo, fazendo estágios prolongados pelo Planalto Central, tornando aquele ponto quase como sua morada preferida.
Mas, a bem da verdade, não podemos desconhecer que a danada da mentira é, isso sim, uma instituição internacional. Ela está no meio dos mais pobres, mas também anda de mãos dadas pelos mais altos escalões. E não é capaz de distinguir o público e o privado.

19/08/16

O Componente Místico

Do lado de tudo fica tão fácil. O brasileiro vinha bem. Faltava pouco. A medalha já se insinuava no quadro. Mas, faltou um pouco de concentração. E ele foi perdendo fôlego. E os de trás foram passando. E nosso representante caiu. Era uma vitória certa. Tivesse um pouco mais de capricho, de garra, de determinação, de esforço. Ou de treinamento, mesmo. 
Do lado de tudo fica tão fácil. O jogo está pegado. Os atacantes perdem chances incríveis.  O treinador também não colabora. Escala o time muito mal. O esquema não funciona. A arbitragem também não está muito atenta. Não marca falta. Deixa o jogo andar. No fim, a culpa é de todo o mundo.  A culpa é da diretoria que contratou errado, que escolheu o treinador inexperiente, que não renovou o contrato de alguém, que não contratou outro. O time despenca na tabela. E o campeonato nem é tão difícil assim. Parece que falta um pouco de raça, de gana, de determinação.
Do lado de cá tudo fica tão fácil. Bastava investir um pouco mais no esporte. Dinheiro tem. Aí estaríamos lá em cima no quadro de medalhas. Daria até para protagonizar uma disputa com os EUA e a China. O governo não ajuda, também. Só recolhe impostos e não dá nada em troca. As soluções estão aí. Basta querer.

15/08/16

Sócrates e Galvão

A impressão é de que todos nós estamos
sobre um solo rico em pedras preciosas.
 Porém, não há como saber onde elas estão.
Filósofos, místicos, religiosos e curiosos de todas as tribos vêm dedicando algum tempo na análise da existência humana. São alguns milhares de anos de perguntas, respostas e conclusões parciais. Para cada resposta dada, novas questões vão surgindo. Ciclos e mais ciclos vão sendo criados sem que seja antevisto algum fim possível. Há conclusões definitivas, é claro! Mas, o tempo vai passando e o definitivo vai ficando para trás. 
Quais as finalidades da existência? Onde isso tudo leva? Qual a contribuição de cada um neste processo?  Qual a importância do indivíduo? E do grupo? As questões são infindáveis tanto quanto são as teorias existentes.

27/07/16

O Macarrão

Julius Moser - 1808
Um dos grandes dilemas da humanidade é o da origem do macarrão. A versão mais popular é a de que Marco Polo, o viajante veneziano, em suas andanças pelo reino mongol-chinês, protegido pelo grande Kublai Kahn, frequentador dos grandes banquetes servidos por seu senhor, teria tomado gosto pela coisa. A iguaria, feita a partir do milheto, se tornou uma espécie de preferência do italiano. Quanto retornou à sua terra natal, 17 anos depois de conviver com os mandos e desmandos de Kahn, Polo ditou suas aventuras para um amigo escritor (que como ele se encontrava preso). Consta que o amigo era criativo ao extremo e recheava as aventuras de Marco com algumas pitadas a mais de emoção. No calor da narrativa teria supervalorizado encontro de Polo com a massa chinesa, como se fosse algo inédito mundo culinário. A história foi repetida inúmeras vezes e oito foi criado.   
Porém, segundo muitos pesquisadores apaixonados pelas massas italianas, a história de Marco Polo ter trazido a receita da massa da china é pura invencionice. Para alguns foram os árabes que trouxeram a receita para a Sicília, sul da Itália, por eles conquistada, o século 9. Há quem afirme peremptoriamente que desde o Império Romano, a Itália já conhecia a fórmula de misturar água, farinha de trigo e vinho branco.  A massa depois era esticada em longos e finos fios e colocada a secar ao sol e ao vento pra melhor se conservar.
O molho mais simples e não menos apreciado que acompanha o macarrão também tem uma origem bem curiosa. Segundo consta, os tomates foram levados do Peru para a Europa. Porém, como a fruta foi cozida junto com as folhas, as primeiras experiências ocasionaram intoxicações coletivas, sendo proibida sua produção. Anos mais tarde, um cozinheiro napolitano separou somente as frutas e produziu respeitável molho que superou a desconfiança de todos e se tornou uma referência apreciada em todo o planeta.
Presente em cardápios de restaurantes em todo o mundo, o macarrão com molho à bolonhesa reúne o molho de tomate e carne bovina moída. No entanto, em Bolonha, na Itália, não se encontra o tal prato. Eles acham o molho processado, de caixinha ou lata, um atentado à culinária e uma difamação à sua terra. E, talvez, tenham razão. O molho deles leva cenoura, bacon, vinho, leite e outros ingredientes. A massa deles também não é a fininha, mas sim achatada. Eles levam esta história tão a sério que até congresso foi realizado para discutir o assunto e hoje a Câmara do Comércio de Bolonha é detentora da patente do legítimo ragu alla bolognese. 
Independente de quem descobriu o macarrão, se foram árabes, chineses ou italianos,  a massa hoje faz parte do dia a dia do brasileiro e de todos os povos da Terra. Como por aqui a criatividade toma conta, que diriam os italianos mais tradicionalistas da ousadia de alguns dos nossos em consumir suas sagradas massas lado a lado com o feijão nosso de cada dia? 


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22/07/16

Das Eleições

É nas pequenas cidades que o fenômeno sazonal das eleições é vivenciado com maior intensidade. A correria sempre é grande. Muito grande. Naquelas que contam com colégios eleitorais reduzidos, uma família que pender para um dos lados pode definir um pleito. Há casos mais radicais, onde um eleitor fiel ficou impedido de votar, por morte, por doença ou por algum caso de última hora, e acabou definindo o resultado. Seu voto seria decisivo. Sua ausência decidiu a corrida eleitoral.
Aqui na Colônia de São Pedro, num destes recantos mais remotos, havia um político dos mais espertos e sorrateiros. Não perdia eleição. Se o seu nome estivesse entre os candidatos, a certeza era uma só: ele venceria. Ao assumir o governo apresentava sempre estratégias peculiares. A primeira delas era chamuscar os companheiros. Segurava o que podia a nomeação dos cargos de confiança. Era uma verdadeira procissão à prefeitura. Militantes iam e voltavam ao palácio municipal ávidos por uma notícia vinda do novo prefeito. Alguns ficavam pelos corredores, encostados na parede com caras de pedintes. 
O eleito silenciava. Parecia mesmo sentir algum prazer em ver aquele povo peticionando um cargo na nova administração. Entre eles, havia alguns que se achavam mais cotados e esperavam uma secretaria. Os dias passavam e com o avanço do calendário já se contentariam com um departamento. Era gente que dias antes carregava bandeiras e enfrentava de peito aberto as críticas e até os atos violentos do outro lado. Gente que delirava a cada palavra dita pelo então candidato nos comícios realizados nos salões paroquiais no interior. Chegavam a puxar o coro com o nome do homem. 
Agora, sentados na escadaria da prefeitura viam o tempo passando e a chance de ocupar um dos cargos de confiança se reduzindo cada vez mais. 
Suprema ironia. Verdadeira agressão aos verdadeiros militantes era assistir ao chefe de uma grande família da oposição chegar para uma reunião a portas fechadas com o chefe. Pior foi notar sua satisfação ao sair de lá com uma portaria de nomeação. “Logo ele que foi do contra”, pensavam alguns. “Foi a única localidade que perdemos e o prefeito me faz uma dessas”. “Na próxima eleição ele vai ver”.
Governar com alguns inimigos era uma das estratégias. A preferência recaia sobre as famílias mais numerosas. Inimigos ontem, parceiros hoje. A próxima eleição? Bem, a próxima sempre será a próxima. Até lá as coisas se ajeitam. Haverá tempo para separar as abóboras dos pepinos, adoçar uns bicos de uns companheiros que se sentiram prejudicados por falta de cargo e garantir alguns apoios dos oposicionistas. Quando chegar a próxima eleição, os dias de hoje serão meras lembranças que irão se apagando lentamente.